Vista do Rio
"A asa manobrava tranqüila no espaço. Manobras
largas. Muito alto, muito longe, como se não corresse
perigo nenhum.
Apesar do vento, consegui acender o que sobrara do baseado.
A liberdade prometida no perfume daquelas brasas. Enchi o peito
de fumaça, prendi e soltei. Prendi. Soltei. Fui tentando
relaxar, esquecer que havia outras pessoas por perto. Mas era
impossível. A angústia cresceu.
Lá embaixo, a imensidão, o mar e o asfalto. Lá
no alto, deslizando, Virgílio. A vida de cabeça
para baixo, o destino se abrindo e se fechando, como uma boca,
a armadilha gente grande, niilista, matemática. E ele?
Voando, literalmente. Dando-se ao direito de pular em correntes
invisíveis de ar, que subiam pelas encostas, rodopiavam
e construíam trajetórias, rebatiam, se interpenetravam,
mais lentas e espraiadas, ou mais rápidas e ascendentes,
fazendo a asa cruzar o céu num balé anti-gravitacional.
Eu e Virgílio insistíamos em apostar nossa auto-estima
numa única fonte de satisfação. Arte. Arte.
Arte. Vivíamos o mesmo momento, divergindo totalmente
na maneira de enfrentá-lo. De modos diferentes, quase
opostos, nenhum de nós havia, até aquele momento,
demonstrado ter o único dom indispensável para
se atingir o sucesso no meio artístico, ou seja, o de
compor fingindo que está revolucionando.
Acendi novamente o baseado. Estava com medo, ansioso, pessimista
e angustiado. A beleza daquela tarde me deprimia. Não
conseguia parar de pensar. Percebi que minhas queixas em relação
ao passado eram, no fundo, em relação a mim mesmo,
em qualquer tempo. Renitentes encarnações anteriores,
drenando minhas energias, se intrometendo e barrando o caminho
até os verdadeiros problemas. A expectativa da infância,
infinita, eternamente promissora, ia sendo confrontada com aquele
sombrio desfecho da adolescência. A cada afirmação,
uma negação. O destino se abria e se fechava,
cada vez mais nitidamente. A vida em branco, em preto maldito,
funil."
(Trecho
do próximo livro de Rodrigo Lacerda, um romance chamado
Vista do Rio)
|