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letra T
A maneira
como minha mãe escrevia o T, cortando-o com um traço
esvoaçante que se abria em dois, numa ampla e sinuosa
curva, fazia-o parecer uma echarpe de seda tremulando ao vento,
atrás de uma refinada e elegante mulher. Era sua letra
mais bonita, a que eu mais amava.
Era-me sempre um prazer deparar com
a assinatura de seu nome, cheio de tês, em seus muitos
livros. Eles me acenavam alegremente, chamando para entrar,
gozar da leitura, convite nunca recusado.
Às vezes era requisitado para
ler sua escrita mais extensa, seus grandes textos. Seu caderno
de receitas, por exemplo. Lá ficava eu, ditando para
ela as medidas, os ingredientes, enquanto ela se esfalfava,
preparando os bolos e salgadinhos dos dias de grande festa.
Reencontrava então os tês, inquietos, nervosos
e impacientes com a expectativa do acontecimento. Escandalosos,
agitavam gigantescos xales que cobriam palavras inteiras.
Muito muito depois, não conseguia
ler suas cartas sem que os tês me parecessem lenços
de adeus em porto molhado de chuva. Mais ainda, os tês
transformavam as palavras onde estavam inscritos em navios
que soltavam uma longa e suspirosa fumaça ao se despedir,
partindo para longe, navegando a duras penas por entre as
linhas do papel escrito, uma estranha frota perdida no tristonho
mar de palavras.
(do
livro "Mergulhador de Acapulco" - Editora Imago
- Rio - 1992, anteriormente publicado no suplemento semanal
"Cultura" do jornal "O Estado de São
Paulo", no. 543 - ano VIII- pg. 12, de 05/01/91)
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