Sérgio Telles



A letra T

A maneira como minha mãe escrevia o T, cortando-o com um traço esvoaçante que se abria em dois, numa ampla e sinuosa curva, fazia-o parecer uma echarpe de seda tremulando ao vento, atrás de uma refinada e elegante mulher. Era sua letra mais bonita, a que eu mais amava.

Era-me sempre um prazer deparar com a assinatura de seu nome, cheio de tês, em seus muitos livros. Eles me acenavam alegremente, chamando para entrar, gozar da leitura, convite nunca recusado.

Às vezes era requisitado para ler sua escrita mais extensa, seus grandes textos. Seu caderno de receitas, por exemplo. Lá ficava eu, ditando para ela as medidas, os ingredientes, enquanto ela se esfalfava, preparando os bolos e salgadinhos dos dias de grande festa. Reencontrava então os tês, inquietos, nervosos e impacientes com a expectativa do acontecimento. Escandalosos, agitavam gigantescos xales que cobriam palavras inteiras.

Muito muito depois, não conseguia ler suas cartas sem que os tês me parecessem lenços de adeus em porto molhado de chuva. Mais ainda, os tês transformavam as palavras onde estavam inscritos em navios que soltavam uma longa e suspirosa fumaça ao se despedir, partindo para longe, navegando a duras penas por entre as linhas do papel escrito, uma estranha frota perdida no tristonho mar de palavras.

(do livro "Mergulhador de Acapulco" - Editora Imago - Rio - 1992, anteriormente publicado no suplemento semanal "Cultura" do jornal "O Estado de São Paulo", no. 543 - ano VIII- pg. 12, de 05/01/91)

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