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Mataram
o Salva-Vidas
Conto extraído do livro "Angu de Sangue",
de Marcelino Freire
Estamos felizes. É domingo no Brasil do Rio de Janeiro.
As crianças rebolem a areia, a praia rebole, as bundas
vêm de todo planeta. Se umas poluem, outras evoluem –
como baterias de escola, como negros jogando bola. Ninguém
quer saber de chuva. Eu não vou ser a chuva. O domingo
é um dia para morgar no mormaço. O rio é um só sorriso.
Faço um texto turístico, ora.
Estamos felizes. Porque o nosso litoral – pasmem – tem
7.367 quilômetros de extensão. Águas claras e águas quentes
o ano todo. Mesmo a cidade de São Paulo tem suas águas
e seu mar de automóveis. Todos descendo para Suarão, Sonho,
Cibratel I, Embaré, Ilha Porchat. Umas, impróprias para
o banho, outras abertas para a diversão do cachorro espumando
nas ondas, enterrando-se como língua na areia branca.
Não quero saber. Não queremos
saber o que aconteceu ontem. Ontem já era.
Por que não falar, por exemplo, do futevôlei? São praticamente
as mesmas regras do vôlei de praia, bastando trocar as
mãos pelos pés. O jogador pode usar o tronco, a cabeça
ou qualquer parte da perna. Pular fora da areia, não afundar.
Não se deixar levar pelo vento em popa. Agora estou falando
do iatismo. Nele, cada direção a ser tomada tem um nome
náutico: Bolina Cochada, Través, Largo. Você só precisa
saber nadar. O caso do moço de ontem era outro. Que moço?
Ontem, naquele alvoroço.
Há quem vá à praia só para comer. Ou para tostar. Para
os dois casos, há conselhos a dar:
1) Escolher apenas produtos dermatologicamente testados,
2) O mormaço deixa passar até 60% da radiação solar,
3) Nos restaurantes cariocas, não deixar de tomar Sopa
Leão Veloso – um famoso caldo feito com cabeças de peixe
e de camarão, ou
4) Arroz-de-cuxá de São Luís do Maranhão.
Importante lembrar que, embora o Brasil possua 192 faróis,
eles foram apenas feitos para os perigos do mar. Os perigos
do mar. Como se o Mar Morto com eles não morresse. Os
tubarões não pudessem atacar. Os navios não fossem ao
fundo do mar. Não houvesse piratas nem contrabandos. Nem
óleos vazassem pelos canos. As baleias não caíssem cambaleando.
O moço de ontem fosse também o moço de hoje, mais vivo
que o sol nascido. Não tivesse levado o raio daquele tiro.
O que fazer? Há uma enormidade de coisas a querer fazer
na praia. Surfe, mergulho, trekking, camping e até nudismo.
Pode-se ficar nu – pasmem mais uma vez – pode-se revir
ao mundo. Mostrar tudo, sem disfarce de tanga.
Mostrar tudo, como um índio. Pedra Grande é uma delas,
uma dessas praias que permitem a manifestação completa
do paraíso. Ela fica em Trancoso, Bahia. Há Pedras Altas,
em Santa Catarina. Tambaba na Paraíba. Nu como uma nuvem
nua.
Não quero fazer chover. Não tenho esse poder. Quero que
este texto tenha alguma serventia – dar aos navegantes
um aviso. Quer seja sobre as várias temperaturas do país,
quer seja sobre os oceanos da Lua. Ou o corpo do moço,
lá, estendido.
Das temperaturas, anote aí: não só o que vem do sol queima
a pele, mas as caravelas e as águas-vivas. Se queimado,
use vinagre ou álcool. Não beba muito, cuidado. Você pode
perder o juízo, pode ficar agitado. O mar é um armadilha
cercada por todos os lados. Não nadar em águas turvas
ou escuras.
Conheça algumas temperaturas máximas: 30 graus para o
Recife, 33 para Macapá. O moço não teve como escapar.
O moço, ontem, haverá de ser encontrado. Espero.
Pela costa brasileira, de Rio de Janeiro a Vitória são
608 quilômetros.
Passa-se por Magé, Tanguá, Rio das Ostras, Macaé. Há estradas
de terra, há serras, há cidades atravessadas, pedágios
e polícias rodoviárias. A essas horas já haverá uma autoridade
debruçada sobre o caso? Ou debruçada na cadeira de praia?
Entoalhada? Ou na borda da piscina? Será que o ridículo
do Cristo Redentor não está vendo tamanha carnificina?
Sabe onde fica Rio Vermelho? A praia de Rio Vermelho é
baiana. E
extremamente poluída. Dividida em três trechos: Mariquita,
Santana (de onde saem, todos os anos, embarcações com
oferenda a Iemanjá) e Paciência.
Conheço todo canto e todo buraco do Brasil. Meu carro
radical. Enfrenta paz e solidão. Sol de todo tipo. Quebrando
a minha cabeça, lascando meus óculos escuros.
Ontem mataram um homem nas areias de Copacabana e ninguém
viu nem prendeu o bandido. Logo ontem, no domingo. Que
vexame! Meu medo é que essa onda de violência acabe arrastando
o povo para o verão de Miami.
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