Biografia

Ao findar o século XIX, a Rússia debatia-se nas garras de terrível reacionarismo. A vida do povo era triste, carregada, sem esperanças. Profunda apatia pesava sobre as classes intelectuais, cansadas e desiludidas das lutas políticas. Uns se lamentavam sem cessar; outros se entregavam a uma existência de completa indiferença...

Foi nessa Rússia que surgiu um escritor cujas obras ganharam enorme repercussão. Chamava-se Anton Pavlovitch Tchekhov, era médico e, apesar de sofrer do peito, levava uma vida agitadíssima. Nascera de pais pobres em Taganrog, em 1860, e a custo de esforços lograra concluir o curso com distinção, sendo nomeado professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Moscou.

Dramaturgo e romancista, começou a escrever para os jornais da capital e de São Petersburgo, mas, a princípio, seus trabalhos foram mal recebidos. Ao contrário do que sucedia com os outros grandes autores eslavos, as personagens de Tchekhov não eram tragicamente profundas; não gritavam, não urravam, não amaldiçoavam céus e terras; levavam uma vida calada, monótona, melancólica. Quando se reuniam, falavam de coisas vagas – de um barco pintado de azul; de pobres soldados discorrendo sobre vários temas; de uma velha governanta que passa seus dias a pensar na cor dos olhos do filhinho, do menino que está ajudando a criar; de um jovem médico que se levanta de manhã bem cedo, enquanto o resto da cidade está dormindo sob a neve, para meditar em paz na hora que precede o amanhecer... Tudo muito melancólico, muito melancólico.

Essa aparente dispersão de assunto, esse estilo nebuloso e vago provocou estranheza. A Rússia não estava habituada a tanta sutileza. De repente, porém, o império inteiro reconheceu-se, de corpo e alma, na obra do novo escritor. A glória logo lhe sorriu. Concederam-lhe o prêmio Pushkin, elegeram-no para a Sociedade dos Amigos da Literatura Russa, e, suprema honra, construíram um teatro especialmente para a representação de suas peças.

Raros autores foram tão amados por sua gente como Tchekhov. Ele conhecia intimamente todas as fraquezas, todas as pequenas misérias de seu povo, mas, em lugar de fustigá-lo, como Dostoievski, ou de exaltá-lo, como Tolstoi, compadecia-se dele e, às vezes, chorava com ele.

É no conto que o gênio de Tchekhov se expande em toda a sua extensão. Na narrativa curta a sua arte finíssima encontrou o clima propício para o florescimento de seus dotes de observador "enamorado da humanidade", como escreveu Virginia Wolf. Poucos leitores deixarão de se comover com os sonhos que povoam a alma do pobre Olenka Plemyanniakov, com os pueris terrores do pequeno Yegorushka. E quem não se enternecerá com a história do pobre Vanka, escrevendo a incrível carta para a família, ou com esse humilde Gusief recordando a aldeia natal? Pela técnica, pela maneira de tratar o assunto, Tchekhov, falecido em 1904, pode ser colocado entre os grandes inovadores do conto.