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Nos últimos
30 ou 40 anos, mudou - e muito - a idéia, o sentido, a afeição
depositada no dia da semana que dá nome a esta revista, a Sexta
Feira. Mas isso ocorreu não tanto por causa desse dia, e sim devido
a uma transformação no Sábado. Último dia
da semana, pelo menos em português (já que a existência
de uma Segunda-feira mostra que para nós, ou para nosso idioma,
ao contrário do que diz o gênesis, o descanso não
encerra a semana, mas abre-a, começa-a), no Sábado se trabalhava.
Havia aula nas escolas, em seus períodos diurnos, havia expediente
nas empresas, ao menos na parte da manhã. Um belo filme francês
dos anos 50, o Ascenseur pour l´échaffaud de Louis Malle
atesta bem isso: a hoje espantosa normalidade do Sábado, então
um dia útil.
Pois o Sábado foi perdendo a utilidade. As escolas começaram
a fechar, as administrações e os escritórios a folgar.
O que restou de trabalho, nos espaços que um flâneur devassa
enquanto percorre a cidade, foi o comércio e, sobretudo, estendendo-se
pela tarde e pela noite, agora invadindo até os domingos, as lojas
de shopping - isto é, um comércio de charme. (Quero dizer,
um comércio que tem charme mas que, também, vende charme
como sua principal mercadoria). Não sei quanta gente trabalha no
Sábado, mas percebo que, com razão ou sem, uma aura de charme,
uma mescla de entretenimento e diversão coroa este dia. E daí
resulta, o que é o nosso interesse, que a Sexta-feira virou bola
da vez, o último a ser ainda e apenas mercadoria, fator de troca,
sem outras remunerações afetivas. Deste ponto de vista,
a semana encolheu, e a Sexta-feira converteu-se em sua ponta.
Mas isso não significa que a Sexta-feira pese - ao contrário,
e justamente porque ela põe termo à utilidade, ela é
passagem. À medida que se acerca o meio-dia, o habitante da grande
cidade a quem pertence algo do espírito de flâneur principia
a contagem regressiva. Se até os corretores da Bolsa este dia aposentam
a gravata e calçam tênis! Algo do lazer vai marcando as horas
do último útil, inutilizando-o simbolicamente, antecipando
cada vez mais o limiar. Porque, se este se dá no fim da tarde,
é significativo que a passagem do trabalho útil ao lazer,
ao charme e a seus avatares esteja sendo ensaiada desde manhã.
Esta fronteira demarcando o trabalho percebido como alienado e o tempo
da folga e d folguedo constitui a Sexta-feira num dia atravessado pela
miragens da festa. Talvez não tanto pela sua realidade, mas por
sua antevisão, pela espera contada do momento em que ocorrerá
a liberdade. Tanto assim que uma cadeia americana de bares até
louva a Deus pela Sexta-feira! Mas penso que a riqueza que este dia hoje
possui está, precisamente, em ser um momento de passagem. Isto
em primeiro lugar. E, em segundo, em não ser exatamente um momento,
mas uma infinidade e momentos, um recorte cinematográfico, que
nos permite perceber a passagem não como um corte radical, no instante,
mas como se víssemos o seu filme em câmara lenta, quadro
a quadro.
Em suma, a Sexta-feira é um dia muito apropriado ao antropólogo.
É um tempo de passagem, e com isso ela retoma um tema caro a tantos
pesquisadores da área. Mas é, além de ser passagem,
também um tempo; isso quer dizer que hoje as fronteiras não
mais se trabalham segundo divisões radicais, cirúrgicas,
mas se concebem como demoradas construções da alteridade.
Quando Nelson Pereira dos Santos critica o moralismo das "três
raças tristes" ou Manuela Carneiro da Cunha fala em mais de
cem etnias presentes no Brasil, ouvimos essa eclosão da pluralidade,
do grade número, que marca práticas intelectuais de forte
corte antropológico, às quais hoje repugnam os numerais
baixos porque facilmente portam o simplismo, a fronteira, o preconceito.
Os corte, as separações, aparecem recorrentemente nos artigos
deste número de Sexta Feira, e não foi por outra razão
que, apresentando-o, quis dar deste significante um sentido que talvez
complemente o do romance de Michel Tournier, Vendredi ou les limbes du
Pacifique, mas que não é exatamente o seu. Estamos num tempo
em que mais se corte do que se constrói. Administradores públicos
ou privados se gabam das economias que efetuaram, cortando suas folhas
de pagamento, mais que das novidades, das construções em
pedra ou em alma, que de todo modo não constituem a prioridades
desta década. Acredito que ser jovem, nos dias de hoje, ser moço
na hora de ingressar no mercado de trabalho, esteja muito difícil.
Porque o ethos atual é do downsizing, do minimal; e irromper na
cena do mundo num momento não só competitivo, mas fortemente
malthusiano, é duro, para quem se percebe como um a-mais. Na hora
do menos, querer ou ser o mais é entrar de chofre no conflito -
é, como dizia Stendhal a respeito de Julien Sorel, ingressar no
mundo por um duelo, mediante um escândalo.
Tenho para mim que aqui reside a qualidade desta Sexta Feira. Quem a faz
são estudantes que se atreveram a entrar no campo da produção
divulgada com um duelo, a querer - e ser -o mais. Estudantes têm,
muitas vezes, coragem. Nem sempre foram, ainda, cooptados pelo medo. É
claro que há estratégias de integração deles
no mundo do trabalho - e, sendo este o da academia, num mundo cuja atração
é mais o prestígio do que o dinheiro ou o mando -, estratégias
que, desde a iniciação científica, vão minando
o atrevimento e a disposição ao desafio mediante a expectativa
de uma inclusão fácil, oportuna, "gregária,
diria Nietzsche, no mercado da ciência. Hoje as instituições
envidam o máximo de seus esforços para domesticar uma energia
selvagem, por vezes subversiva, - e têm tido razoável êxito
em tornar a vida mesquinha. Parece que as instituições andaram
lendo Norbert Elias, sobretudo O processo civilizador, e Nietzsche, em
especial a segunda dissertação da Genealogia da moral, e
dessas grandes obras efetuaram uma aplicação rasteira, integrando,
cooptando num intenso trabalho de elisão e normalização.
Mais não preciso dizer.
Porque o que é bom nesta revista é ir no rumo da construção,
não no da redução. É mesclar a produção
dos estudantes e o diálogo com os artistas, antropólogos
e pensadores de sua referência. É associar o cuidado gráfico
à veemência dos temas. talvez seja um pouco de tudo isso,
enfim, o que faz, desde algum tempo, da antropologia uam das ciências
de mairo impacto - ou, diria eu, de maior fecundidade - no campo das ciências
do homem.
Renato Janine Ribeiro
Setembro de 1998.
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