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Falando
do tempo
Lilia Moritz Schwarcz
O escritor Italo Calvino, em seu livro Seis propostas para o próximo
milênio, traz um capítulo sobre a rapidez. Ficaria frustrado
o leitor que, seguindo literalmente o título, procurasse pela velocidade
do progresso, do acúmulo de novos conhecimentos, do tempo fugaz
do contexto urbano. Ao contrário, nesse caso, o famoso escritor
italiano narra um episódio interessante: trata-se da história
de Chuang-Tsê que, entre tantas virtudes, guardava a habilidade
do desenho. Certo dia, o próprio imperador da China foi até
o artista, com uma encomenda precisa: pediu-lhe que retratasse um caranguejo.
Chuang-Tsê, por sua vez, argumentou que precisaria de cinco anos
e de uma casa com doze empregados para realizar tal tarefa; demanda aceita
como justa e adequada. Passados cinco anos, porém, o pintor não
havia sequer começado o rascunho. "Preciso de outros cinco
anos", disse Chuang-Tsê, e mais uma vez o soberano concordou.
Ao completar o décimo ano, Chuang-Tsê pegou um pincel e num
instante, com um único gesto, definiu um caranguejo: "o mais
perfeito caranguejo que jamais se viu".
Não sei quanto tempo precisaria para desenhar um caranguejo. Também
é certo que essa narrativa permitiria muitas interpretações.
Nesse contexto, no entanto, a história de Calvino possibilita refletir
sobre as construções culturais de certas categorias, a relatividade
de sua compreensão e de seu manejo, apesar da universalidade de
seu estabelecimento. Matéria dos contos também de tradição
ocidental - como Bela Adormecida, em que até a água pareceu
adormecer -, o tempo (assim como o espaço) já inspirou metáforas
e reflexões de origens diversas e que, de tão recorrentes,
mais se pareceram com domínios da natureza. No entanto, tempo e
espaço, parafraseando Lévi-Strauss, parecem "melhores
para pensar" não como e quando os homens imitam a natureza,
mas de que maneira a cultura trapaceia com ela.
Com efeito, não é de hoje que se nota que os homens e as
culturas têm tempos diferentes e constroem seu espaço de
forma significativa. Já Durkheim, entre o final do século
XIX e o início do XX, revelava a importância desses conceitos
para a conformação de uma "ciência do social".
Em um contexto de constituição e de afirmação
da sociologia francesa (leia-se também antropologia) que se queria
a um só tempo diferente da psicologia, da biologia e da filosofia,
bem como portadora de um campo intelectual e institucional próprio,
a nova disciplina acabou por ancorar-se no pressuposto metodológico
básico de que "o social só se explica pelo social".
Entendido como exteriores ao indivíduo, coercitivos e gerais, porque
coletivos, os fatos sociais transformavam-se na matéria-prima dos
sociólogos, sua condição científica; marca
de sua particularidade. Nessa perspectiva, temas e questões que
até então constituíam domínios de outras disciplinas
- como as representações, as classificações,
as categorias de entendimento e a própria noção de
estrutura e de símbolo - passam a ser incorporados como objetos
legítimos e ganham, a partir da obra de Durkheim, um tratamento
analítico inédito (Pontes, 1993:89).
Perspectiva inaugural, na medida em que possibilitava separar um campo
próprio, o recorte permitia, mesmo por meio da investigação
particular e do desvendamento de suas formas mais elementares, que se
garantisse o acesso ao universal e a formulação de uma teoria
geral sobre os fenômenos sociais estudados. É, por exemplo,
no artigo sobre o sistema totêmico australiano, e a partir da religião
- entendida como um dos primeiros sistemas de representação
e de classificação - que Durkheim investiga o lugar de onde
emanam todas as categorias básicas do entendimento, como tempo,
espaço, gênero, número, causa, substância, personalidade,
totalidade. Básicas na medida em que "dominam a vida intelectual
de toda e qualquer sociedade", elas são quase que "a
ossatura e os quadros rígidos que encerram o pensamento humano".
Não existe sociedade que não as possua; sem elas, o entendimento,
a comunicabilidade e a vida social são impossíveis.
No entanto, como "coisas sociais", as categorias de entendimento
são construções que se exprimem no plano simbólico
da cultura. Rompendo com a tradição filosófica alemã
e francesa, Durkheim encontra para a questão uma saída sociológica
que se afasta da análise formal do funcionamento da razão
e das formas a priori da sensibilidade e do entendimento, as quais tornam
possível a apreensão das coisas e do mundo. Nessa última
perspectiva, as categorias, longe de serem entendidas como produtos da
experiência, são dadas de antemão, no sentido de que
são imanentes ao espírito humano. No entanto, para Durkheim,
em nome da preeminência da explicação social, impunham-se
dois supostos paralelos: a verificação de que o mundo tem
um aspecto lógico (que a razão humana exprime em alto grau),
mas que esse aspecto lógico é socialmente construído.
A prova dessa afirmação é dada pela diversidade cultural,
que preenche com conteúdos simbólicos distintos não
só os sistemas classificatórios como os quadros permanentes
do pensamento humano, expressos pelas "categorias do entendimento".
A variabilidade desses conteúdos, atestada por meio de um conjunto
de evidências etnográficas disponíveis na época,
permite corroborar o argumento de Durkheim. Era preciso enfatizar, porém,
que, se os conteúdos culturais e simbólicos são diversos,
os procedimentos formais e sociais que garantem às categorias sua
dimensão estrutural e sua tradutibilidade de sociedade para sociedade
são os mesmos. Aí estava uma grande contribuição
de Durkheim (que seria perseguido de perto por discípulos como
Mauss e Lévi-Strauss) e a relevância guardada de categorias
como o tempo: comuns e diversas na sua experimentação.
Contrapondo-se também aos empiristas, que tomam o indivíduo
como artífice da construção de categorias, Durkheim
reafirmava sempre o estatuto e a anterioridade do social: "a sociedade
não é igual à soma de indivíduos". A
antinomia básica entre indivíduo e sociedade é retomada
por esse autor sobretudo a partir da oposição entre representações
sensíveis e conceitos. As primeiras, por serem expressões
individuais, estariam em perpétuo fluxo: são mutáveis,
instáveis e não passíveis de generalização.
Já os conceitos, por originarem-se da vida social, são a
matéria-prima do pensamento lógico, estão como que
fora do tempo e resistem à mudança sendo mais impessoais,
comunicáveis e portanto base para a generalização.
Por ser social, o homem é capaz de pensar conceitualmente e de
forma simbólica, de maneira a transcender o conhecimento empírico
das coisas e do mundo, assim como tornar-se apto a estabelecer as relações
mais lógicas entre elas. As "representações
coletivas" traduziriam, portanto, estados de coletividade e estariam
na base de toda operação intelectual ao exprimir suas relações
mais gerais. Por meio dessas categorias, Durkheim reafirma as máximas
do racionalismo, ao mesmo tempo que introduz as bases para uma concepção
mais ampla do simbolismo, presente em toda a sua obra e especialmente
no livro As formas elementares da vida religiosa (1912/1989). Ao estabelecer
que o pensamento conceitual é contemporâneo à humanidade,
Durkheim revela como o simbolismo não é só parte
constitutiva da vida social, como sua condição. Pois sem
as representações coletivas, sem o pensamento lógico,
sem as categorias de entendimento - enfim, sem todos esses estoques simbólicos
que conformam a cultura -, a comunicação, a agregação
e a vida social seriam impossíveis. É assim que se esboça,
a partir da obra de Durkheim, uma teoria mais geral da cultura, em termos
de se pensar o lugar, o estatuto e o papel do simbolismo na vida social.
Por sua vez, o tempo, concebido como uma das categorias de entendimento,
ganha lugar central na medida em que permite prever permanência,
como também a própria relatividade, lida na lógica
das culturas.
Esse tipo de questão foi central, também por opor, ou por
vezes unir disciplinas como a história e a antropologia. Entre
os historiadores, a percepção de que o estudo da diacronia
permitia prever lentidões e precipitações, entre
estrutura e conjuntura, fez com que profissionais como Fernand Braudel
diferenciassem o tempo geográfico do tempo histórico, reconhecendo
dezenas de temporalidades que implicavam, cada uma, uma história
particular. Em O Mediterrâneo (1947/1995), Braudel seguiu a trama
de uma observação geográfica, buscando não
só localizações, mas permanências, imobilidades,
repetições, "regularidades" da história
mediterrânea. Utilizando o termo "longa duração",
o historiador confessava seu "temperamento estruturalista, pouco
solicitado pelo acontecimento" (1995:625); e defendia a importância
de se reconhecer a existência de "tempos longos" e decompor
a história em planos escalonados: "Ou se quisermos, à
distinção, no tempo da história, de um tempo geográfico,
de um tempo social, de um tempo individual" (1969/1978:15). Longe
do que se convencionou chamar de história tradicional, positiva
ou événementielle - conforme designada por F. Simiand e
P. Lacombe -, esta estava mais atenta ao tempo breve, ao indivíduo,
ao acontecimento e ao fôlego curto; a longa duração
permitia pensar em estruturas bastante distantes do tempo cumulativo,
quase cíclicas em seu movimento, cuja duração lentamente
ritmada escapava ao observador comum.
Mas não cabe atribuir a Braudel a exclusividade desse recorte.
Já Marc Bloch descobria, por meio da análise do poder de
cura dos reis taumaturgos franceses e ingleses (1924/1993), uma história
que não se limitava a esses soberanos ou à duração
de seus reinados. Tratava-se do desejo do milagre, busca que não
é privilégio de um ou de outro século. A assim chamada
Nova História (como uma das herdeiras da Escola dos Annales) aprofundou
a concepção, trazendo para esse domínio a problematização
de uma história não só serial e baseada na suposta
sucessão cronológica. Por trás da noção
de "história problema" (Febvre, 1971) estava a idéia
de que se deveria tematizar o próprio Cronos; e a de histórias
que demoram mais a passar.
Thompson, em uma outra tradição - na versão inglesa
que se fez sobretudo materialista e social - mostrou como, na temporalidade
pontuada pelos ritmos da natureza, ganhava espaço o tempo da fábrica,
por meio de uma noção mediatizada pelo trabalho, com o advento
da Revolução Industrial no século XIX (1986). Isso
para não deixar de falar de C. Lefort, o qual, em As formas da
história, introduziu o conceito de "historicidades",
ao marcar a importância de se distinguirem modelos cuja lógica
implica não acomodar tudo ao nosso exemplo de história cumulativa,
mas prever que sociedades diversas representam seu tempo de formas distintas
(1974).
O tempo é
construção social
Com efeito, são
muitas as tradições. Na antropologia, a problemática
do tempo levou a se repensar a idéia de relatividade, esteio teórico
da disciplina. De alguma maneira é esse o procedimento metodológico
seguido por Evans Pritchard em seu estudo sobre os Nuer - grupo que junto
com os Dinka formam uma subdivisão de um grupo nilota que ocupa
parte da África Oriental - quando enfrenta a especificidade dessas
categorias, nessa sociedade.
Discípulo da primeira geração da escola estrutural
funcionalista, Pritchard parece levar a sério o desafio de buscar
explicações "do social pelo social". A tentativa
é, entre outras, entender de que maneira conceitos como tempo e
espaço são determinados pelo ambiente físico, mas
os valores que eles encarnam constituem apenas uma das possíveis
respostas a esse ambiente e dependem também de princípios
estruturais. Por exemplo, ao trabalhar com o tempo Nuer, Pritchard reflete
sobre suas relações com o meio ambiente - chamado de tempo
ecológico -, bem como estabelece ligações mútuas
dentro da estrutura social, denominadas "tempo estrutural".
Ambos referem-se a sucessões de acontecimentos, mas possuem bastante
evidência para que a comunidade os note e os relacione. O tempo
mais longo, os períodos maiores, são quase sempre estruturais;
os tempos mais breves são ecológicos. Além disso,
enquanto o tempo estrutural é progressivo e cumulativo, o tempo
ecológico é cíclico e delimitado.
O ciclo ecológico corresponde ao período de um ano. É
na verdade uma resposta ao movimento constante dos acampamentos Nuer,
que reagem à dicotomia climática chuva e seca. O ano tem
basicamente duas estações - tot e mai -, sendo que a primeira
corresponde, grosseiramente, ao período do aumento das chuvas,
embora não abranja todo o período, e o segundo, a seu declínio.
Mas o conceito deriva menos das estações e mudanças
climáticas do que das atividades a elas relacionadas. Para os Nuer
os tempos dividem-se em períodos de residência na aldeia
e outros de habitação no acampamento.
A falta de uma nomenclatura específica pode ser percebida também
na forma como os Nuer evitam usar os nomes dos meses, preferindo referir-se
à atividades precisas: a época dos primeiros casamentos,
a época de colheita... Mesmo a lembrança de certos acontecimentos
especiais é feita sempre com relação a outros eventos,
ou ao número de luas ou de sóis. Existem, é fato,
termos para hoje, amanhã, ontem; no entanto, esses não possuem
qualquer precisão.
Na verdade, o relógio diário é o gado, o círculo
das tarefas pastoris, fundamentalmente a sucessão de tarefas e
suas relações mútuas. Assim, se as atividades dependem
dos corpos celestes e das mudanças físicas, estas, por sua
vez, só são significativas em relação às
atividades sociais. Portanto, o tempo não possui um valor fixo
e assume conotações diversas em função da
estação do ano. Tudo isso é corroborado pela falta
de um termo ou de uma expressão equivalente ao vocábulo
"tempo", encontrado nos idiomas ocidentais. Desse modo, não
há como falar de tempo como algo concreto, que pode ser perdido,
economizado e assim por diante. Os acontecimentos seguem uma ordem lógica,
mas não são controlados por um sistema abstrato, não
havendo pontos de referência autônomos aos quais as atividades
devam conformar precisão.
Parece, dessa maneira, que é mais fácil pensar no modelo
Nuer em função das atividades da estrutura social e das
diferenças estruturais do que em unidades puras de tempo. As mudanças
naturais só adquirem significação em relação
ao valor que têm para as atividades humanas. Nesse sentido, trata-se
de delinear um tempo estrutural, na medida em que esse representa uma
ideação das atividades colaterais, coordenadas ou cooperativas:
os movimentos de um grupo.
Mas não só o tempo Nuer é estrutural; o mesmo ocorre
com as noções de espaço. O espaço ecológico
é mais do que a mera distância física, embora seja
afetado por ela. Um rio cria uma barreira, assim como um cinturão
tsé-tsé. Nesse sentido, a distância ecológica
é uma relação entre a comunidade, definida em termos
de densidade e distribuição, com referência à
água, vegetação, vida animal e insetos... Já
a distância estrutural é distinta, embora seja profundamente
influenciada pelas condições ecológicas. Por distância
estrutural, Pritchard denomina o espaço estabelecido entre grupos
de pessoas dentro de um sistema social, expresso em termos de valores.
Uma aldeia Nuer pode estar eqüidistante de outras duas aldeias, mas,
se uma destas duas pertencer a uma tribo diferente daquela a que pertence
a primeira aldeia, pode-se dizer que ela está estruturalmente mais
distante da primeira aldeia do que da última, que pertence à
mesma tribo. As classificações Nuer ajudam, portanto, a
relativizar nossa própria apreensão absoluta do tempo e
do espaço. Sem uma medição fixa e amparados por convenções
e medições de certa forma externas às experiências
sociais, os conceitos Nuer são sempre estruturais e relativos.
Como diz Pritchard: "os Nuer têm sorte" (1978:116) Interessado
por esse tipo de problemática, Clifford Geertz analisa "os
calendários balineses". É fato que esse autor redigiu
seu livro com quarenta anos de distância em relação
ao trabalho de Evans Pritchard, fazendo parte de uma outra escola e filiação.
No entanto, a despeito das clivagens teóricas é possível
comparar obras priorizando recortes semelhantes. As interpretações
não parecem tão distantes, sobretudo quando Geertz mostra
como existem entre os balineses muitas formas por meio das quais os homens
são conscientizados ou talvez se conscientizem sobre a passagem
do tempo: por meio das mudanças das estações e as
alterações da lua, do progresso na vida de uma planta, do
ciclo medido pelos ritos do trabalho agrícola e das atividades
domésticas, da preparação de projetos e sua execução,
do recital de lendas ou do enquadramento de profecias. Entre essas marcas
todas está também - e de modo especial - o reconhecimento
em si mesmo e em seus companheiros do processo de envelhecimento biológico,
o surgimento da maturidade, a decadência ou o desaparecimento de
indivíduos concretos.
Geertz comprova, dessa forma, como existe um grande elo entre a concepção
de um povo do que é ser uma pessoa e sua concepção
de estrutura de tempo. É por isso que, ligada a uma visão
despersonalizada da condição de pessoa, reside uma noção
atemporalizante de tempo, pelo menos do ponto de vista ocidental. Os calendários
balineses não são usados para marcar o decorrer do tempo,
nem mesmo para acentuar a singularidade e inevitabilidade do momento que
passa, mas para classificar as modalidades qualitativas, nos termos das
quais o tempo se manifesta na experiência humana. Tais calendários
cortam o tempo em unidades limitadas, não para quantificá-las,
mas sim para descrevê-las. O primeiro calendário (mais próximo
do nosso) é lunar-solar. Já o outro é construído
em torno da interação dos ciclos, independente dos nomes
dos dias, e é chamado por Geertz de permutacional. Não é
usado para medir o ritmo de passagem temporal; é adaptado para
distinguir e classificar partículas de tempo. A utilização
desse calendário estende-se a praticamente todos os aspectos da
vida balinesa. No primeiro caso, ele determina todos os feriados, classificando
os dias em duas variedades: cheios e vazios; dias em que ocorrem fatos
de importância e dias em que nada ou quase nada ocorre. Os primeiros
são chamados de "tempos" e os segundos de "buracos".
Outras aplicações do calendário podem ser notadas,
mas, de uma forma geral, decorrem dessa e reforçam sua percepção
geral.
Entre as outras determinações, a mais importante é
a que estabelece as celebrações nos mais de 20 mil templos
em Bali, cada um com seu dia. Portanto, a vida balinesa é pontuada
não apenas pelos feriados que todos respeitam, mas também
por freqüentes celebrações nos templos, sendo que a
maioria dos balineses pertence a mais de um templo. Além dos motivos
religiosos, o calendário permutacional engloba assuntos seculares
da vida diária: bons ou maus dias para construção,
para partir de viagem, começar um negócio... Há tempo
de cremar, um tempo para casar, um tempo para divorciar, um dia de nascimento
que não é o aniversário. Como se vê, sobra
ao calendário lunar doze meses enumerados, que vão de uma
lua nova para outra. De toda maneira, em Bali o anonimato das pessoas
e a imobilização do tempo constituem dois lados de um mesmo
processo social: o esvaziamento simbólico da percepção
dos companheiros como predecessores ou sucessores, em favor da representação
como contemporâneos. Assim como os eventos parecem feriados, a vida
balinesa faz do tempo uma experiência sem clímax: eles aparecem,
desaparecem e reaparecem. Em curso estava uma certa propensão para
manter o tempo como um estado estável.
Longe do tempo breve - mas memorável da temporada narrada por Thomas
Mann, em A montanha mágica -, o tempo balinês é sempre
avesso ao passado e preso ao presente. Não é a falta de
medição que o distingue ou é estranha, mas sua concepção
paralela de medir.
No tempo misterioso da montanha
Nada como recorrer
à literatura que, como define Roland Barthes, nunca diz que sabe,
mas sabe muito. O truque é sensibilizar o leitor a partir da trajetória
de Hans Castorp, personagem dileto de Thomas Mann no livro citado, um
"jovem singelo e simpático" cuja história fala
"de fatos passados há muito tempo" e que "estão
por assim dizer recobertos pela pátina do tempo, e em absoluto
não podem ser narrados senão na forma de um passado remoto"
(1980:9). Encobertos pela pátina do tempo estão o próprio
Castorp, seu primo Joachim, Clawdia, o dr. Behrens, o sr. Settembrini
e Naphta... personagens que residem no sanatório Berghof, localizado
na aldeia suíça de Davos-Platz. Aí está o
laboratório de uma Europa enferma, onde, reunidos pela mesma doença,
entrelaçam-se inquietações, ilusões, sofrimentos
e utopias. Longe da planície, porém, o tempo é sujeito
a novas regras e à monotonia da rotina, marcada pelos exames, passeios,
refeições, horários fixos e rituais de descanso.
Imerso nessa agenda repleta, nosso Castorp, passivo de caráter,
vai se deixando ficar nesse local em que o tempo ganha outro ritmo e duração.
Mas deixemos Thomas Mann falar de sua história e de seus tempos:
"[...] é necessário que as histórias já
se tenham passado. Poderíamos até dizer que, quanto mais
se distanciam do presente, melhor corresponderão à sua qualidade
essencial e mais adequada serão ao narrador, este mago que evoca
o pretérito. Acontece, porém, com a história o que
hoje em dia também acontece com os homens, e entre eles, não
em último lugar, com os narradores de histórias: ela é
muito mais velha que seus anos; sua vetustez não pode ser medida
por dias, nem o tempo que sobre ela pesa, por revoluções
em torno do sol. Numa palavra, não é propriamente ao tempo
que a história deve o seu grau de antigüidade - e com esta
observação feita de passagem queremos aludir ao caráter
problemático e à peculiar duplicidade desse elemento misterioso"
(idem:9). Antes de propriamente começar, Thomas Mann fala desse
elemento misterioso chamado tempo. Misterioso e problemático, porque
a história não é tão antiga: construído
nos anos seguintes à Primeira Grande Guerra, o livro narra episódios
que teriam se desenvolvido antes, mas não muito antes desse evento.
Mas o tempo é misterioso porque fala de um local onde, de tão
intenso, o tempo deixa de existir, neutralizado pela ordem das regras,
pelos embates que envolvem a fé, a morte, a ciência, a filosofia,
o amor e o próprio tempo.
No entanto, já que não há como ficar com tantos temas,
nada como selecionar, mais uma vez, o tempo; elemento suspenso quando
o debate opõe a luta pela vida, ou que isola os homens numa montanha
que só é mágica porque, muitas vezes, não
tem volta. É sobre esse "estranho" que comenta Joachim,
logo no início da narrativa, quando Castorp não passa de
um principiante, que em sua primeira refeição no restaurante
local troca palavras que parecem sensatas: "Sim senhor, mas o tempo
deve passar depressa para vocês aqui". Ao que seu primo reage
tal qual colega experiente: "Depressa ou devagar, como quiser. Propriamente
não passa de modo algum; sabe? Aqui não há tempo
nem vida; não senhor, não há nada disso - acrescentou
meneando a cabeça. E novamente levantou a taça" (idem:23).
Sem tempo, depressa ou devagar, o ciclo que parece sempre cumulativo e
jamais circular desfaz-se em nome da espera de cada um, ou do tempo do
hábito, o qual "representa a modorra, ou ao menos o enfraquecimento,
do senso de tempo, e o fato dos anos de infância serem vividos mais
vagarosamente, ao passo que a vida posterior se desenrola e foge cada
vez mais depressa - esse fato também se baseia no hábito"
(idem:20). Duvidando da própria racionalidade de nossas medições
temporais, o literato mostra como o tempo é objeto relativo para
quem pouco viveu - e faz de cada momento uma marca única - ou para
aquele que de tanto experimentar faz do gesto a regularidade e com ele
abrevia o tempo que passa como quer.
Mas o que seria desse mundo de hábitos se não existissem
certos costumes que repõem o tempo? Nada como a música,
advoga Settembrini, "que mede o curso do tempo de uma forma especial
e cheia de vida, e assim lhe empresta vigilância, espírito
e preciosidade. A música desperta o tempo; desperta a nós,
para tirarmos do tempo um gozo mais refinado..." (idem:131). Despertando
do hábito que inibe o tempo, a música é moral porque
em vez de entorpecer é capaz de fazer agir. Mas como o tempo "é
um enigma, difícil de resolver" (idem:161), pode ser o mote
que leva à ação, ou pode ser o ópio que causa
apatia e estagnação. De novo o tema é o curso do
tempo, assim como se fazia com a temperatura, que naquele local era tomada
regularmente (idem:184). Mesmo assim, nem um, nem outro eram passíveis
de controle: nem o tempo com sua ambigüidade (ora rápido,
ora lento), nem a temperatura (que se elevava ou abaixava como desígnio
dos céus). Insistia Thomas Mann que, em sua história, "É
o mesmo dia que se repete uma e outra vez; mas justamente por se tratar
sempre do mesmo dia, parece no fundo pouco adequado o termo 'repetição'.
Melhor seria falar de invariabilidade, de um presente parado ou de eternidade.
Trazem-te a sopa à hora do almoço, assim como a trouxeram
ontem e trarão amanhã" (idem:207). É como se
cada um vivesse uma vertigem: enquanto a sopa se aproxima, os tempos confundem-se,
misturam- se no espírito que se revela como uma forma de existência
na qual o presente carece de extensão e na qual a sopa é
servida eternamente. É que talvez a convivência com a morte
torne nossos heróis sensíveis e melindrosos às agruras
do tempo, tão longo e tão abreviado.
E eis que o romance corre ligeiro e Hans Castorp comprovava que as sete
semanas que já passara lá em cima não pareciam mais
do que sete dias. Ou às vezes tudo lembrava exatamente o contrário:
que já vivia naquele mesmo lugar há mais tempo, muito mais
tempo, do que a realidade lhe anunciava. Pouco importa; como diz Mann:
"Uma coisa e outra, provavelmente, eram verdade: ao seu olhar retrospectivo,
o tempo ali passado afigurava-se excessivamente longo como excessivamente
breve. Um único aspecto desse tempo, entretanto, escapava-lhe sempre:
a sua duração real - admitindo ser o tempo um fenômeno
natural e ser lícito relacionar com ele o conceito da realidade"
(idem:248). Escapava-lhe justamente o aspecto palpável do tempo,
o mês de outubro que estava prestes a começar - que podia
chegar a qualquer instante - ou mesmo a realidade dos dias impressos no
calendário.
Castorp parecia mesmo afeito às filosofias de Settembrini que,
comparando povos, falava de seus tempos. Os russos, por exemplo, com sua
vastidão, falam em quatro horas, como se nós disséssemos
uma hora. "Onde há espaço há muito tempo. Diz-se
que eles são o povo que tem tempo e pode esperar. Nós, os
europeus, não o podemos. O tempo que temos é tão
exíguo quanto o espaço de nosso continente nobre e delicado
nos seus contornos. É preciso que administremos economicamente
o nosso tempo e o nosso espaço . O tempo é mesmo dom divino..."
(idem:273). Fazendo do tempo objeto dileto de sua filosofia, Settembrini,
personagem otimista de Mann, introduzia mais outro argumento, que retirava
desse elemento sua já suspeita regularidade. Inaugurando um jogo
travado com o espaço, o próprio tempo revelava-se outra
vez frágil.
E enquanto isso o "tempo discorria, escoava-se e seguia o seu curso
[...] de forma que nenhum homem de espírito são pudesse
considerá-lo história" (idem:601). Afinal, quanto tempo
passara lá em cima? Em que época do calendário? A
própria narrativa de A montanha mágica escolhe seu eixo
e o desenlace de seus heróis: a morte para alguns, a espera para
outros, o retorno ao mundo do tempo breve para Castorp. Entre tantos destinos
ficamos perdidos entre tempos compartilhados e esquecidos. Como o tempo
das férias, que parecem tão breves, mas longas na lembrança,
o livro de Thomas Mann obriga a marcar como, também entre nós,
o tempo é matéria da negociação, é
ambíguo em sua compreensão, múltiplo em seus desenlaces.
Não é o caso de multiplicar exemplos ou de fazer um levantamento
exaustivo de episódios; afinal, o tempo sempre deu muito o que
falar. O tema permite prever temporalidades diversas, historicidades particulares,
feitas de permanências culturais e de releituras misteriosas de
nossos próprios calendários e rotinas. Nesse mundo atordoante
da realidade globalizada, nada como voltar os olhos para esses relógios
originais, orientados pela experiência e pela riqueza das construções
culturais, que são sempre - e no limite - uma dádiva que
não se tem como optar.
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Lilia Moritz Schwarcz
é professora livre-docente pelo departamento de Antropologia Social
da FFLCH-USP.
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