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A
invenção de Morel, entre o Tempo e os tempos
Júlio Pimentel Pinto
O tempo, já se disse, é o único tema, o enigma essencial.
Também já se falou que é ambíguo, simultaneamente
uno e múltiplo: ora absoluto, substância formadora dos homens,
ora fragmentário, expresso na história dos infinitos momentos
vividos, das horas diversamente trilhadas. Certamente Adolfo Bioy Casares,
escritor argentino falecido em 1999, não foi o único que
tentou desvendar esse enigma. Realizou, porém, em A invenção
de Morel , uma admirável interpretação do diálogo
entre a noção de Tempo absoluto e a idéia de temporalidades
plurais.
Num interessante paralelo às leituras borgeanas sobre o papel fundador
da memória, o romance de Bioy, publicado em 1940, conta a intrigante
história de um fugitivo da justiça que busca, numa ilha,
a salvação. Espécie de diário deixado ao futuro,
o romance, narrado em primeira pessoa, oferece o relato de alguém
que encontra refúgio e paixão em seu isolamento, intencional,
de um mundo que o perseguia. Nos primeiros tempos, vive sozinho, aproveitando-se
da fama da ilha: suposto foco de enfermidade, fôra anteriormente
habitada e abandonada. Ninguém mais arriscava expor-se à
doença terrível que "matava de fora para dentro".
Após o período solitário, o narrador passa a assistir
ao cotidiano repetitivo de um grupo de pessoas cuja chegada ele não
sabe explicar e cujos modos soam anacrônicos. Soma-se a essa misteriosa
aparição - e aos óbvios riscos que tal contato implicaria
para um fugitivo - um conjunto de manifestações fantásticas
da natureza: verão antecipado, fauna e flora alternadamente apodrecidas
e viçosas, marés descontroladas, duas luas no céu.
Do susto trazido pela chegada súbita e incompreensível dos
indesejados companheiros de ilha à paixão por uma das visitantes,
a trajetória do narrador é rápida. A ânsia
de quebrar o isolamento e o fascínio pelo encanto suavemente cigano
da mulher que, ligação demoníaca, se chama Faustine,
movem-no para que, ciente dos riscos, aproxime-se dela e do mundo que
ela representa. Mundo estranho, como estranho é o desejo, embora
humano, que alimenta a obsessão do fugitivo. Pouco ele sabe ou
saberá dela, que não responde a seus chamados e, com o passar
do tempo, a suas súplicas. Os olhos de Faustine não vêem
o narrador ou, para ser mais exato, nas palavras do próprio, é
"como se não servissem para ver".
Ele busca, instigado pelo desejo, nas entranhas da ilha e das construções
antes abandonadas, explicação para o alheamento de Faustine.
O ciúme que sente diante do assédio de um outro homem amplia
sua disposição talvez inconscientemente investigadora. O
mistério, após peregrinações por portas que
se abrem e fecham sem lógica ou justificativa, finalmente se desata.
E a explicação é incrível: Morel - o homem
que assediava Faustine - construíra, em sua semelhante obsessão,
uma prodigiosa máquina, capaz de extrair das coisas e das gentes
uma espécie de essência, primeiro armazenada, depois projetada.
Fracassado em sua tentativa de seduzir Faustine, Morel captara secretamente
imagens durante uma semana de veraneio e, graças ao movimento da
maré, que fazia funcionar seu invento, deixou-as serem reproduzidas
eternamente, numa espécie de filme dotado de todas as dimensões
possíveis. Não só imagens e sons ficaram gravados:
todos os sentidos foram aprisionados por sua máquina, capaz de
manter eternos os cheiros, o tato, o ambiente que rodeava as pessoas,
o calor e as chuvas, sol e lua em seus ciclos. Tudo o que estava ao alcance
da máquina ficava armazenado para depois ser repetido. Morel, em
seu sonho apaixonado, criara um mundo paralelo em que Faustine continuaria
sempre a seu lado: foi a saída que escolheu para viver junto da
mulher que, na vida comum do cotidiano sem mistificações,
o desprezava. O custo da filmagem era a "morte de dentro para fora",
extraídas das pessoas suas vidas para torná-las pura imagem.
Os olhos de Faustine, como pressentiu o narrador, não serviam de
fato para ver. Impossível cruzar olhares distantes vários
anos um do outro: o do narrador, colocado no presente de sua paixão
e do tempo do relato, e o de Faustine, tornado imagem pela invenção
de Morel, mas fixado num Tempo pleno definido no passado e em sua indiferença
pelo inventor.
Esclarecido o enigma, o narrador coloca-se diante de um dilema: capaz
de dominar a máquina, pode optar entre a contemplação
eterna de Faustine sem entabular qualquer outra ordem de contato com ela
ou pode refazer a trama montada por Morel e inserir-se em sua rede de
imagens, simulando intimidade com a amada e substituindo o inventor em
seu assédio infinito. A decisão, claro, é pela segunda
possibilidade. O medo de que a máquina quebrasse - e a contemplação
cessasse - e a esperança de penetrar no cotidiano de Faustine fazem
com que prefira reeditar o mundo idealizado de Morel. Submete-se mortalmente
aos efeitos do engenho alheio e, nas últimas linhas de seus escritos,
já sentindo as primeiras manifestações da deterioração
que a morte começa a realizar em seu corpo, faz uma última
súplica, desta vez não a Faustine - ao lado de quem já
vive como imagem -, mas ao leitor, para que tente construir outra máquina
e o insira "no céu da consciência de Faustine".
Será, diz o narrador, "um ato piedoso".
O relato da trama apresentado acima, embora longo e imperfeito , é
necessário para que notemos a cuidadosa construção
da idéia de tempo realizada por Bioy em seu romance. Várias
concepções estão em jogo e estabelece-se entre elas
um diálogo que demonstra seus sincronismos e suas dissonâncias.
Bioy não localiza com precisão na cronologia o momento em
que se dá a história: refere-se a 1924 como o momento em
que teriam-se erigido as construções presentes na ilha;
a epopéia do narrador dá-se cerca de vinte anos depois.
Mas permite, nessa primeira localização do leitor, a percepção
de passagem de tempo: as construções trazem a marca do abandono,
as roupas dos convidados estão, segundo o narrador, fora de moda,
as músicas tocadas dão um ar quase fútil de passadismo.
Homens vivem, tempos passam: na lógica da modernidade, as temporalidades
superam-se fugazmente. Em outras palavras, o próprio embate entre
o momento da ocupação da ilha e o do desenrolar da trama,
intensificado pela presença de pessoas que experimentaram as duas
situações - os convidados e o narrador, respectivamente
-, remete o leitor à lógica de tempo fluido, de temporalidades
múltiplas.
Mas um desejo pára o tempo: Morel constrói sua máquina
e dispõe-se a interromper o movimento das coisas e das gentes.
Fixa, no Tempo absoluto das imagens que o invento reproduzirá,
uma situação de vida, tornando-a imune às alterações
da história. Tempo que não pertence aos homens, que é
pleno e contínuo, cíclico como as marés que fazem
a máquina funcionar, como a lua que percorre o céu da ilha.
Tempo que, por sua imobilidade e fixidez, não é humano nem
dotado da inconstância que caracteriza a história. Em seu
gesto demiúrgico, Morel recria o mundo e, com ele, o Tempo, adequando-o
ao desejo que sente por Faustine. Demoníaco, oferece a seus amigos,
sem que eles saibam e possam decidir se querem, uma vida eterna e de prazeres,
em troca da alma que viverá nas imagens. Ao tempo humano, restrito,
encerrado entre o nascimento e morte, Morel opõe o Tempo absoluto.
A vida, porém, para os mortais, continua. E o Tempo criado por
Morel convive, na ilha deserta, com o tempo da natureza, regular e cíclico.
As paisagens sempre vivas do mundo imagético de Morel convivem
com a natureza deteriorada pelo efeito deletério da máquina
que criou e com outras manifestações naturais que, posteriores
à captação original de imagens, ou intocadas por
ela, recriam as coisas e fazem-nas viverem - por isso o narrador espanta-se
com o confuso espetáculo da natureza alternada ou simultaneamente
apodrecida e viçosa. Com ironia, Bioy apresenta ao leitor os limites
da tentativa de criar o Tempo total: no máximo, esse absoluto tem
de conviver com o tempo mutante, não pode apenas se impor a ele.
Mas, para o propósito de Morel, essa convivência com o tempo
da natureza não traz problemas. Enquanto a ilha se mantivesse desabitada,
sua vida eterna com Faustine estaria assegurada.
É exatamente a partir do momento em que ocorre uma intervenção
humana - a chegada do narrador à ilha - que o projeto demiúrgico
de Morel começa a desintegrar-se. Até então, a suspeita
de que a ilha era foco de doença protegera o sonho de Morel. Mas
o acaso - uma conversa acidental, logo no início do livro, do narrador
com um mercador italiano disposto a ajudá-lo em sua fuga - vence
a intencionalidade do inventor. A (re)introdução de vida
humana na ilha cria a oportunidade para que se subverta o Tempo absoluto
lá instalado. O narrador cumpre seu papel humano: estabelecer a
marca do provisório. E, pelos olhos opacos de Faustine, é
guiado para o mundo de imagens de Morel. Primeiro decifra, depois é
devorado. Em seu turno de demiurgo, recria o Tempo, definindo seu lugar
dentro dele. Reproduz a trajetória consciente de Morel e morre
para viver eternamente ao lado da mulher que deseja. Mais do que isso,
transita da temporalidade humana, capaz de erguer e de destruir, capaz
de fazer as coisas passarem, para o absoluto da projeção
que ocupará os céus e as terras da ilha.
Bioy oferece, assim, ao narrador, a possibilidade de fracionar o sentido
absoluto do Tempo para, em seguida, restabelecê-lo. Menos ingênuo,
porém, que Morel, o narrador sabe dos limites humanos na tentativa
de inventar o Tempo. Sua própria experiência, estragando
o sonho de Morel, é prova suficiente de que homens não conseguem
ser deuses. Previne-se, ao menos parcialmente, contra novas intromissões:
destrói o captador de imagens e assegura que não será
substituído no assédio eterno a Faustine. Reconhece, também,
o caráter ilusório de toda imagem, de toda edição
de imagem, ao simular, aos olhos de um espectador ocasional, intimidade
com a mulher que, bem sabe, o ignora. Duplica a própria identidade,
abandonando a vida restrita de fugitivo e trocando-a por outra, incerta,
talvez promissora. De resto, não é o único personagem
do romance a desfrutar da condição ambígua de homem
e imagem - logo, do duplo vínculo a um tempo provisório
e a outro, absoluto. As duas luas no céu da ilha, estranheza notada
com assombro no início do livro pelo narrador, reforçam
- pelo fio da metáfora e pelo significado direto, na língua
espanhola, de espelho - a dúbia identidade das pessoas que participam
da trama.
Negado o direito à ingenuidade, o narrador aceita o fato, inicialmente
constrangedor, de que o próprio Tempo que criou venha a ser rompido.
Fausto, atormentado na busca de sua Faustine, dá-se conta de que
seu esforço pode ter sido em vão, de que a ida para o universo
imagético pode apenas ser o segundo passo da mesma fuga que iniciou
o livro: isola-se dos homens, menos pelo que o atrai no mundo de refúgio
do que pelo que não suporta no mundo em que vive. Reinventa o Tempo
e, ao fazê-lo, cria, de fato, um diálogo entre o absoluto
e o relativo. Seu engenho, diferentemente do de Morel, tem mão-dupla.
É intenção, mas é reconhecimento de limite.
Enxerga, perplexo, sua trajetória no espelho da do inventor da
máquina e pede clemência. Sabe que o tempo que instalou na
ilha não é pleno, nem definitivo. Não é sequer
satisfatório para o possível propósito de ir além
do mero refúgio. Seu pedido final é, nesses termos, eloqüente:
"À pessoa que, baseando-se nestas informações,
inventar uma máquina capaz de reunir as presenças desagregadas,
farei uma súplica: Procure-nos, a Faustine e a mim, faça-me
penetrar no céu da consciência de Faustine. Será um
ato piedoso". Consciente, o narrador propõe outra interferência
humana, pede outra máquina, que possa novamente romper o traçado
do tempo. Mais do que isso, a conclamação, ambiciosa, é
para que se criem, no novo tempo, trazido pela nova máquina, relações
que (re)humanizem as imagens, permitindo-lhes diálogos que o universo
meramente imagético não aceita. Bioy coloca, nas palavras
finais, mais uma ironia: o narrador, capaz de criar, pelo domínio
tecnológico, um Tempo supostamente absoluto, só encontrará
redenção se seu engenho for superado numa temporalidade
futura.
O jogo entre temporalidades, no romance, é complexo. Morel cria
um Tempo definitivo, capaz de formar e fixar pessoas e situações,
como resposta à impossibilidade de realizar sua paixão por
Faustine na temporalidade humana. Certamente ficaria apavorado diante
da possibilidade de que alguém o rompesse, como o narrador do romance
o faz, trazendo de volta à dimensão humana o sentido de
tempo. Em seguida, o narrador recria o absoluto de Morel, dando-lhe outra
feição. Mas, criticamente, aceita a transitoriedade, rapidamente
descrê do caráter absoluto do que criou e propõe uma
nova variação da temporalidade. Ao contrário de Morel,
a sucessão dos tempos não ameaça seu desejo, mas
o acolhe, dando condições para que se complete a relação
apenas parcialmente estabelecida com Faustine. Se Morel pretendeu transitar
dos muitos tempos ao Tempo, o narrador realiza, mesmo que de maneira errática,
percurso inverso, restabelecendo a verdade humana.
É claro que as interpretações acerca do tempo, no
romance de Bioy, não se limitam aos aspectos apontados. O próprio
caráter de testemunho assumido pelo relato reitera o sentido memorialístico
e reinsere a lógica de tempos múltiplos: escreve-se para
exorcizar um passado, para fixar um presente, para inventar um futuro.
Como toda memória, recompõe a experiência vivida conforme
os fluxos do presente e recria-a na hora em que se transmuta em narrativa,
conformando sentidos e inscrevendo sua interpretação do
tempo passado. Estabelece diálogos entre distintas temporalidades
e recusa qualquer tentativa de absolutizar o tempo.
Igualmente, trata-se, como Borges lembra no Prólogo ao livro, de
um romance de engenho, cuja trama é de tal forma fechada, cuja
construção do texto é tão francamente racional,
que todos seus elementos encaixam-se num quebra-cabeças literário.
Reforça-se, dessa forma, pela opção narrativa do
autor, um debate não apenas em torno dos conteúdos e formas
assumidos pelo romance, mas também acerca dos procedimentos literários
e dos sentidos da escritura. No jogo de temporalidades tornado contínuo
pelas últimas palavras do narrador, pode-se ver uma indagação
acerca do caráter aberto de todo texto: o convite ao leitor para
que complete o engenhoso trabalho iniciado por Morel e desenvolvido pelo
próprio narrador é o reconhecimento da infinitude das interpretações
possíveis de um texto. Ou seja, da presença de leitores
diversos em tempos diversos, produzindo novas compreensões a partir
de uma obra e ressituando-a historicamente. É um fato óbvio,
mas muitas vezes esquecido, que todo livro supõe uma história
de suas leituras. Valida-se, assim, a idéia de narrativa que se
(re)constitui no ato de interpretação, a partir de leituras
cruzadas, do engendramento de muitas perspectivas e histórias -
sempre no plural e na determinação do diverso, que indicam
a importância não apenas do resultado final, do conteúdo
conjetural de uma interpretação, mas sim de seu engenho,
do trabalho em si de tessitura da narrativa literária. O "relato
de sobrevivente" - como o narrador denomina, num momento, seu testemunho
- compõe o cenário em que se dá tal junção
e representa essa busca odisséica pelo tempo. Nela, ao Tempo opõem-se
os muitos tempos, percebidos na sua provisoriedade e fugacidade, tempos
que denotam as perspectivas variadas de quem apela a eles e os busca e
reconstrói. Tempos que comportam sua marca histórica: referem-se
ao diálogo travado entre um presente, que reflete sobre si mesmo
e sobre os caminhos de seu engendramento, e os muitos passados que alimentam
esse presente e que podem ser lidos distintamente, segundo a perspectiva
de quem os procura. O tempo é, assim, duplamente percebido: de
um lado, o tempo existencial, que regula o próprio relato e a possibilidade
de entender a época em que este se situa e o tipo de conversa que
entabula com o passado; de outro, o tempo da memória, percebido
e transmitido pelas gerações de leitores, devidamente reposto
e desdobrado nas leituras do presente.
A invenção de Morel percebe as muitas temporalidades que
vivem sob o sonho de um Tempo absoluto e resgata a diversidade, desvelando,
simultaneamente, a multiplicidade do tempo, a diversidade do cotidiano,
a importância dos detalhes e a consciência da história,
traduzida em história das leituras de um texto. Do Tempo passamos
aos tempos, dotados de história e de mobilidade. A relação
tramada entre suas dimensões não é de linearidade
(passado compondo presente, que, por sua vez, define o futuro), mas de
autonomia: presente e passado entabulam contatos que podem ser desencadeados
por miudezas, por instantes, por vislumbres. Assim, a idéia de
história - plural - significa a possibilidade de apreender o passado
num momento fluido, na mesclagem de várias percepções
do tempo. O narrador torna-se cronista e explora um passado em que detalhes
e instantes ajudam a compor o sentido de provisoriedade de cada ação
e interpretação. Gradativamente o Tempo original metamorfoseia-se
no tempo memorial e a história passa a existir no limite entre
a noção de tempos e a nostalgia de um Tempo. Pelo filtro
dos instantes, produz-se a restauração seletiva do passado,
importando deste referências que ganham novos sentidos, atribuídos
pelo presente. A experiência do passado ressurge, guiada pela experiência
atualizadora da leitura.
Ao assumir o papel do leitor como construtor da trama do romance e como
possível agregador de novas temporalidades, Bioy responde à
súplica final do narrador e, de alguma forma, realiza o ato piedoso
implorado: faz do livro a máquina literária capaz de imiscuir,
na consciência dos leitores, capazes de um engenho a mais, a percepção
das múltiplas temporalidades em suas constantes tensões.
Júlio Pimentel
Pinto é professor no Departamento de História da Universidade
de São Paulo (USP) e autor, entre outros, de Uma memória
do mundo - Ficção, memória e história em Jorge
Luis Borges (São Paulo, Estação Liberdade, 1998).
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